sábado, 6 de outubro de 2012

Trecho de Clarice XIII

              

Das Vantagens de Ser Bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor.  E só o amor faz o bobo.

(Clarice Lispector)


"Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! "

PS: Adorei isso...será porque???;)


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Música para lavar a alma

                       

Luz Dos Olhos

Ponho os meus olhos em você
Se você está
Dona dos meus olhos é você
Avião no ar
Dia pra esses olhos sem te ver
É como o chão do mar
Liga o rádio a pilha à tv
Só pra você escutar
A nova música que eu fiz agora
Lá fora a rua vazia chora

Os meus olhos vidram ao te ver
São dois fãs, um par
Pus no olhos vidros pra poder
Melhor te enxergar
Luz nos olhos para anoitecer
É só você se afastar
Pinta os lábios para escrever
A tua boca em mim
Que a nossa música eu fiz agora
Lá fora a lua irradia a glória

E eu te chamo
Eu te peço vem
Diga que você me quer
Porque eu te quero também

Faço as pazes lembrando
Passo as tardes tentando
Te telefonar

Cartazes te procurando
Aeronaves seguem pousando
Sem você desembarcar
Pra eu te dar a mão nessa hora
Levar as malas pro Fusca lá fora

E eu vou guiando
Eu te espero vem
Siga aonde vão meus pés
Porque eu te sigo também

Eu te amo
Eu te peço vem
Diga que você me quer
Porque eu te
Quero também


Cassia Eller

Não sou para todos


Luz

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Para refletir


"É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana –  Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós."
(Franz Kafka)

Indicação de leitura

                           

Pela primeira vez indico dois livros num só mês. O bom é que são opções totalmente diferentes, mas que nos permite refletirmos sobre a vida como um todo. Independente de crença religiosa ou política, creio que o que é bom,  que nos faz bem  e nos faz PENSAR, é bom dividir com os outros. Esse livro me fez refletir profundamente que as coisas simples estão realmente nos gestos mais simples, e de como Deus se encontra na simplicidade. É o tipo de livro que , ao chegar no final nos deixa em paz! Vale a pena. O mês de outubro, na Igreja Católica, é dedicado a Santa Teresinha. Fica a dica.


Livro: História de Uma Alma
Autor: Santa Teresinha

"História de uma alma é um manuscrito autobiográfico de Maria Francisca Teresa Martin imortalizada na história da Igreja como Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face. O Manuscrito muito mais do que uma Biografia é um itinerário da vida espiritual desta Doutora da Igreja. Ao narrar os fatos de sua vida, desde a infância até seus últimos dias, vemos o Amor misericordioso de Deus, que se manifestou na sua vida, lendo as páginas do livro não apenas com um olhar raso, mas um olhar contemplativo vamos percebendo que ela viveu de fato o que ela desejava ser: um “brinquedo velho” mas mãos do Menino Jesus, do qual Ele pudesse fazer tudo o que lhe fosse agradável. É possível perceber também que ao contrario das autobiografias modernas, Santa Teresinha não procura fazer de seus manuscritos uma exaltação de si mesma, mas sim deixar um testemunho de uma vida inteiramente consagrada ao Senhor.  Durante a leitura do livro vai-se percebendo que Santa Teresinha não viveu nada de extraordinário como muitos pensam acerca dos santos. Mas ao contrário nas pequenas coisas e nos fatos comuns da vida ela foi tomando consciência de sua vocação e respondendo o seu SIM, ao chamado de Deus, ao qual ela tinha grande alegria de se considerar esposa.  Após viver na sua vida a santidade, que se manifestou nas pequenas coisas, sofreu com a tuberculose que lhe causaria sua morte precoce aos 27 anos de idade. Foi canonizada em 1925, e declarada padroeira das missões junto com São Francisco Xavier. Em 1898 foi publicado pela primeira vez “História de uma Alma”. Ela deixa o exemplo de que não é necessário fazer coisas grandiosas e extraordinárias para se chegar à santidade, mas sim viver bem aquilo que nos é proposto em nossas vidas tendo sempre nosso olhar voltado para o céu, de onde Santa Teresinha olha e roga a Deus por nós."

(Luiz Felipe dos S. Montecinos)

"Não possuo o valor buscar orações formosas nos livros, como não sei como escolher, penso como as crianças e digo simplesmente ao bom Deus o que necessito, e Ele sempre me compreende."
(Santa Teresinha)

Indicação de Leitura


                          

Na época de colégio um professor de História indicou a leitura de "O Príncipe" e não nos falou mais nada a respeito, disse que só iria se pronunciar depois que o tivéssemos lido; e eu prontamente me senti interessada, imaginando na minha ingenuidade, que seria um romance importante a ponto de ser estudado em sala de aula. Qual não foi minha decepção ao iniciar a leitura e me deparar com uma linguagem de difícil compreensão em todos os sentidos. Por mais que estivéssemos empenhados em aprender História/Política e sermos críticos a respeito, aquilo parecia ser de outro planeta. E que jovem vai se interessar por política e a maneira de governar um país, ainda mais morando em um que já não existe mais a monarquia? Mas na ânsia de tentar entender alguma coisa e mostrar que conseguiria dissertar sobre a obra fui viajando nas páginas do livro, e a cada capítulo queria morrer, não entendi nada! Mas depois com a explicação do professor a respeito do mesmo, tudo se tornou um pouco mais fácil e entendemos sua proposta de nos mostrar que uma obra escrita ha muitos anos atrás, ainda nos faz refletir sobre política e poder nos dias de hoje. Que aquilo se trava "apenas" de conselhos para um Príncipe que governa uma nação, e que atitudes um governante político deve possuir , trazendo para si  o apoio do povo, sendo justo e ao mesmo tempo rigoroso. Reli essa obra anos mais tarde mais umas duas vezes e ri muito da minha ingenuidade da primeira vez que abri o livro. Não é um livro para se ler rápido, nem para distrair a cabeça. Mas nos faz pensar sobre a política como um todo e como não é fácil governar um país, uma nação e agradar ao povo e a si ao mesmo tempo; sem contar que alguns trechos do livro nos faz refletir quanto a nós mesmos enquanto "pessoas" e enquanto "pessoas com poder". Fica a dica para uma época de eleição!

Livro: O Príncipe
Autor: Nicolau Maquiavel

"É este livro que sugere a famosa expressão os fins justificam os meios, significando que não importa o que o governante faça em seus domínios, desde que seja para manter-se como autoridade, entretanto a expressão não se encontra no texto, mas tornou-se uma interpretação tradicional do pensamento maquiavélico. 

Nesta obra, Maquiavel defende a centralização do poder político e não propriamente o absolutismo (como muitos pensam)*.  Suas considerações e recomendações aos governantes sobre a melhor maneira de administrar o governo caracterizam a obra como uma teoria do Estado moderno.

Uma leitura apressada ou enviesada de Maquiavel pode levar-nos a entendê-lo como um defensor da falta de ética na política, em que "os fins justificam os meios". Para entender sua teoria é necessário colocá-lo no contexto da Itália renascentista, em que se lutava contra os particularismos locais. Durante o século XVI, a península Itálica estava dividida em diversos pequenos Estados, entre repúblicas, reinos, ducados, além dos Estados da Igreja. As disputas de poder entre esses territórios era constante, a ponto de os governantes contratarem os serviços do condottieri (mercenários) com o intuito de obter conquistas territoriais. A obra de Maquiavel revela a consciência diante do perigo da divisão política da península em vários estados, que estariam expostos, à mercê das grandes potências européias."

Fonte: Wikipédia


"Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis."
(Nicolau Maquiavel - O Príncipe)