quinta-feira, 16 de junho de 2011

Música para lavar a alma




Quase Sem Querer

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso.
Só que agora é diferente:
Estou tão tranquilo
E tão contente. 

Quantas chances
desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.

Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira. 
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo. 

Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você. 

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas? 

Me disseram que você
estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto. 

Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você

(Legião Urbana)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Não deixe o amor passar



Não deixe o amor passar 


Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Trecho de Clarice II



"A Viagem (trecho)

Impossível explicar. Afastava-se aos poucos da­quela zona onde as coisas têm forma fixa e arestas, onde tudo tem um nome sólido e imutável. Cada vez mais afundava na região líquida, quieta e insondável, onde pairavam névoas vagas e frescas como as da madrugada. Da madrugada erguendo-se no campo. Na fazenda do tio acordara no meio da noite. As tábuas da casa velha rangiam. De lá do primeiro andar, solta no espaço escuro, afundara os olhos na terra, procurando as plantas que se torciam enrodilhadas como víboras. Alguma coisa piscava na noite, espiando, espiando, olhos de um cão deitado, vigi­lante. O silêncio pulsava no seu sangue e ela arfava com ele. Depois a madrugada nasceu sobre as cam­pinas, rosada, úmida. As plantas eram de novo ver­des e ingênuas, o talo fremente, sensível ao sopro do vento, nascendo da morte. Já nenhum cão vigiava a fazenda, agora tudo era um, leve, sem consciência. Havia então um cavalo solto na campina quieta, a mobilidade de suas pernas apenas adivinhada. Tudo impreciso, mas de súbito na imprecisão encontrara uma nitidez que ela apenas adivinhara e não pudera possuir inteiramente. Perturbada pensara: tudo, tudo.
As palavras são seixos rolando no rio. Não fora feli­cidade o que sentira então, mas o que sentira fora fluido, docemente amorfo, instante resplandecente, instante sombrio. Sombrio como a casa que ficava na estrada coberta de árvores folhudas e poeira do cami­nho. Nela morava um velho descalço e dois filhos, grandes e belos reprodutores. O mais novo tinha olhos, sobretudo olhos, beijara-a uma vez, um dos melhores beijos que jamais sentira, e alguma coisa erguia-se no fundo de seus olhos quando ela lhe es­tendia a mão. Essa mesma mão que agora repousava sobre o espaldar de uma cadeira, como um pequeno corpinho aparte, saciado, negligente. Quando era pe­quena costumava fazê-la dançar, como a uma moci­nha tenra. Dançara-a mesmo para o homem que fu­gia ou fora preso, para o amante — e ele fascinado e angustiado terminara por apertá-la, beijá-la como se realmente a mão sozinha fosse uma mulher. Ah, vivera muito, a fazenda, o homem, as esperas. Ve­rões inteiros, onde as noites decorriam insones, dei­xavam-na pálida, os olhos escuros. Dentro da insônia, várias insônias. Conhecera perfumes. Um cheiro de verdura úmida, verdura aclarada por luzes, onde? Ela pisara então na terra molhada dos canteiros, enquanto o guarda não prestava atenção. Luzes pen­dendo de fios, balançando, assim, meditando indife­rentes, música de banda no coreto, os negros farda­dos e suados. As árvores iluminadas, o ar frio e arti­ficial de prostitutas. E sobretudo havia o que não se pode dizer: olhos e boca atrás da cortina espian­do, olhos de um cão piscando a intervalos, um rio rolando em silêncio e sem saber. Também: as plan­tas crescendo de sementes e morrendo."

Trecho do livro " Perto do coração Selvagem"  - Clarice Lispector

Indicação de Leitura



Perto do Coração Selvagem
Autora: Clarice Lispector

Recomendo a leitura deste livro por vários motivos: excelente leitura, por ser uma obra brasileira, pela linguagem  e por tocar fundo na alma. Uma das obras mais tocantes e perfeitas de Clarice Lispector. É simplesmente tudo de bom que uma boa leitura pode oferecer!


"O livro mostra o cotidiano de Joana, menina criada pelo pai, já que a mãe, Elza, morrera muito cedo. O pai passado alguns anos também morre, então ela vai morar com a irmã de seu pai. A tia não gostava de Joana, pois a presença da menina a sufocava e a enviou para um internato, lá ocorre uma paixão avassaladora por seu professor um pouco mais velho. Um ponto culminante que a enviou para o internato foi dias antes acompanhando à tia as compras, como um teste para si mesma e causa espanto aos outros, Joana roubou um livro, trazendo mais dificuldades a sua convivência com a família da tia.

Fora do internato casa-se com Otávio. Joana fica grávida, para a maioria das mulheres a gravidez é uma felicidade, mas para ela não foi assim. Descobre que o marido tem uma amante, Lívia, sua ex-noiva que estava também grávida. Com o tempo ocorre a separação entre Joana e o marido.
Em meio aos acontecimentos observa-se a todo o momento o fluxo de consciência, uma procura constante em descobrir e encontrar a razão de ser de sua existência. O contexto mostra a situação do universo feminino da mulher-esposa, da relação do “eu” e do “outro” ou da relação menina-mulher-amante.
O tempo passa e ela tem um caso com um desconhecido. O homem surgiu estranhamente e também partiu estranhamente. Com a desilusão Joana resolve fazer uma viagem sem destino e não definida, objetivo procurar seu resgate pessoal. A história chega a ser um enigma da vida.
No decorrer de todo o livro mostra o conflito entre morte e vida, bem e mal, amor e ódio, a crise do indivíduo. A busca por algo aparentemente exterior e descobrindo que é a procura do autoconhecimento."
(Por Roberta Laisa Dantas de Sousa)

Música para lavar a alma



Tente Outra vez


Raul Seixas

Veja!
Não diga que a canção
Está perdida
Tenha em fé em
Deus
Tenha fé na vida
Tente outra vez!…
Beba! (Beba!)
Pois a
água viva
Ainda tá na fonte
(Tente outra vez!)
Você tem dois
pés
Para cruzar a ponte
Nada acabou!
Não! Não! Não!…

Tente!
Levante sua mão sedenta
E recomece a andar
Não
pense
Que a cabeça agüenta
Se você parar
Não! Não! Não!
Não! Não!
Não!…
Há uma voz que canta
Uma voz que dança
Uma voz que
gira
(Gira!)
Bailando no ar
Queira!
(Queira!)
Basta ser sincero
E desejar profundo
Você será capaz
De
sacudir o mundo
Vai!
Tente outra vez!
Tente!
(Tente!)
E não diga
Que a vitória está perdida
Se é de batalhas
Que
se vive a vida
Han!
Tente outra vez!…

Poesia



Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens!
Morder como quem beija!É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja

É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Outono na alma



Cuidando do jardim da alma, o outono é a estação que mais me faz refletir sobre as coisas da vida. As emoções fluem com mais melancolia, mas mesmo assim ainda existe um pouco de cor. O vento vem mais forte, mais frio. E a alma insiste em reflexão, na cabeça e no coração, pulsando por estações mais aquecidas. Mas estamos no início dessa estação e as folhas agora que começam a cair no chão, secas, amareladas, se acumulando junto com sentimentos, aguardando um inverno mais frio ainda. Mesmo assim olho o jardim da alma com pensamentos. Já são anos e anos cuidando deste jardim, olhando horizonte afora, observando nas folhas que o vento insiste em carregar...as folhas da linda primavera, e que agora, são levadas de mim. Elas nem me importam tanto e é triste vê-las se desgarrarem dos galhos, mudarem de cor e sendo carregadas sempre para algum lugar em tardes  de outono. O que é bom de se observar, são as mudanças no jardim, tudo se vai, para ser renovado. As manhãs de agora são frias e nubladas. Nos levam com certeza a reflexão. A vontade que dá, é de ficar deitadinha, embaixo de cobertores, aquecendo o corpo e alma, esperando apenas o florir das plantas, chegando com notícias novas para enriquecer a vida. Mas isso não é possível no momento. Para que um jardim se torne realmente belo nas estações aquecidas, é preciso que troque as folhas no outono, que a alma se feche em casulo, sentindo tudo que há para sentir, deixar que o cinza e tons de marrom e verde sejam as cores nobres da estação, e que se permita um leve toque de tristeza para que verdadeiramente cresça apenas sentimentos bons. Não deixa de ser uma emoção intensa. Dói às vezes. Me sinto como a pedra  “no meio do caminho de Drumond”.  
Mas vou deixando acontecer e degustando desta estação, que só se  tornará verdadeira e linda para mim se souber encarar com outros olhos, colocando as cores que eu quero nas folhas que o vento insiste em levar.


(R. Carvalho)